Havia um velho tanque abandonado que bem podia lhe servir de casa se não fosse uma simples borboleta, se fosse gente e ainda assim tivesse asas. Poderia fazer dele sua sala, sentaria em cadeiras de galhos velhos e dormiria em camas inventadas por ela. Também havia uma velha construção. não gostava do interior da casa. La dentro era escuro. E como podia gostar se lá existiam apenas vasos sem flores? Vasos que eram o cinza, o preto e o triste que havia no branco? Eram tudo, menos coloridos como as flores que nasciam de graça nos matos que invadiam o seu quintal. Sabia que na casa uma certa cor tentava nascer todos os dias. Curiosa, vez em quando, arriscava por lá uma excursão. Mas essa cor também morria todos os dias. Quando era inverno e chegava a hora da ave-maria, a tarde escondia o sol numa penumbra de nuvens deixando em seu lugar uma noite escura que trazia com ela homens surrados, cansados. Nada de novo. Donos da casa, pais de tantos filhos, de tantas brigas. Hora triste essa da madalena, hora de chorar o líquido cristalino que caía rasgando verbos, fígados e sonhos. Destruindo prazeres pequenos, os únicos permitidos às borboletas que embora pequenas faziam do pouco, o seu mundo, porque se todo animal intui a morte, ela borboleta a cantava em prosa e verso. Via os homens com seus pés enormes e levantava vôo antes que pisoteassem a sua grama e desmantelassem o seu mundo com o veneno de signos duros que calavam a alma. A alma de borboleta é pura e cada mato destruído é um pedaço de vida que retorna nunca mais, ainda mais no inverno, quando as flores são escassas. Então voltava ao quintal e explorava sua primavera.