- conto de Jo barranova
00h35
Não abro mão do lugar comum. Tenho um em especial que, quando me vem, me faz sustentar o traseiro na cadeira de frente ao micro e passar as horas sem que me aperceba. (Disseram-me que se começasse a escrever afogaria uma vida de angústia que até então eu não sabia que tinha, mas que aceitei depois do primeiro terapeuta). Como escrevo? Geralmente começo assim quando me vem essa vontade de gritar, uma vontade intrometida, abusada, alguma coisa que nasce no peito e aperta sem sabermos de onde vem este aperto. Este é o meu lugar comum. E até me disponho a levantar na madrugada, numa noite de sono perdido para anotar uma frase, uma idéia. (Sempre me esqueço das frases que me vêm de noite, já perdi uma porção delas). Escrevi muitos textos, uns bem resolvidos; outros, confesso, sem qualidade alguma, que joguei numa pasta para textos perdidos salva nos meus documentos. Hoje comecei a escrever por acaso. Terminei a pizza e caminhei até o quarto (isso já era automático) e nem me recordo do trajeto que fiz depois que deixei o prato vazio sobre a mesinha do sofá. Há dias que quero escrever essa coisa a se afogar que falei agora a pouco. Mas hoje o vento atravessou o quarto bagunçando as folhas sobre a escrivaninha e quando olhei para a rua vi que a noite trazia pra fora de mim outras ausências e permaneci à janela alguns minutos. O silêncio me incomoda. Liguei o rádio baixinho e busquei esta vontade de gritar antes que ela me pegasse de surpresa e pensei que talvez nesta noite devesse mesmo escrever alguma coisa.
02h50
Sempre fugi de panelas literárias. Freqüentei oficinas, diversas, e digo que eram todas iguais. Mas aceitava o compromisso do exercício e alguns textos se tornaram livros. Já publiquei dois, o primeiro foi o único elogiado por críticos que não eram amigos meus, nunca procurei saber da qualidade literária desses, os elogios me bastaram. Neste, escrevi sobre meu filho que morreu no parto. Eu era muito jovem pra ser mãe e não pude mais ter filhos. (Não que isso me faça falta agora, ainda não, o livro nasceu de um medo recente, o medo de que isso venha a me fazer falta um dia). Não consegui outro livro igual. Talvez tenha me faltado criar uma personagem pra mim mesma e circular nas rodas literárias de cigarro numa das mãos e copo de uísque na outra, chamando a atenção da mídia para minha imagem e dos críticos para meus livros. Talvez devesse repensar minha escrita, não sei, achei que bastasse criar os textos e carregar as personagens de problemas dos quais era capaz de falar. Por enquanto, só continuo escrevendo.
03h20
Tento fugir do lugar comum (Isso é bem complicado visto que vivo cercada de coisas comuns, escritores comuns, rotinas, mesmas ruas, sala, cozinha). Penso na vida cheia de lugares comuns que perdi quando matei o meu menino e me vem de novo essa vontade de gritar, mas para não ficar reescrevendo sempre o mesmo livro, talvez hoje traga alguma coisa da infância. Lembro-me quando era manhã, para não atravessar a rua distraída (eu sempre me esquecia de olhar para os lados) acostumei a permanecer do lado esquerdo na calçada e somente atravessar quando esta terminava numa praça já próxima à escola. Quando era criança e caminhava pelo meio da praça antes de entrar na escola, fazia o caminho das eritrinas sentindo no rosto o mesmo vento que cruzou hoje minha janela. Era setembro, eu era criança, e já tinha essa sensação de passado perdido.
5h40
Nesta noite eram 21h e já morria de sono. Não dormi, antes pedi uma pizza e liguei a TV. Ah esqueci de dizer que ainda consulto minha pasta para textos perdidos quase todos os dias na tentativa de salvar alguma coisa, mas tenho medo de procurar outra vez um terapeuta. Termino as noites com meu próximo livro sempre inacabado. O prato sujo na mesinha do sofá, lavo no fim da tarde. Se sair para o trabalho agora, talvez consiga um trem vazio e deixo pra dormir no primeiro vagão.
oficina Tantas Letras - SBC
17/09/2009