6 de dezembro de 2010

Versos e equações

- conto de Jo barranova

Não sei direito de onde surgiu o vazio. Firmou-se na terça quando o percebi mais intenso. Na terça não trabalhei, peguei o trem até a última estação, depois voltei sem sair do vagão, com a cabeça encostada no vidro da janela olhando a paisagem de um abc torto, cinza e indiferente. Caminhei sem saber pra onde e já era tarde quando saía de um pronto atendimento desconhecido com o desespero atestado na mão. Procurei um Café para não parar num bar qualquer de uma rua apática junto daquela gentinha de fim de tarde, domésticas e homens de paletós gastos, sapatos empoeirados, tomando pingado enquanto pastas, papéis e sacolas esperavam sobre as banquetas próximas ao balcão. As pessoas já eram sombras compridas, apressadas, automáticas. Sombras introspectivas. Não me percebiam, de certo não viram o poço no rosto que eu tinha diante do espelho.

Ontem abri o e-mail, parei no horóscopo (não que acreditasse nessas coisas, mas precisava delas pra me tornar igual às outras pessoas) e ele dizia “você vai ganhar um bom livro nesta semana”, mas até o cartão da biblioteca perdeu a validade e ainda não tive tempo de procurar um bom título que me tirasse algumas horas dessa realidade. O André só me chama pra discutir filosofia que bem sei onde termina, me ligou a tarde pra concluir um fanzine literário que a meses não saía do papel. Eu disse que precisava acordar cedo, me espremer no trem das seis, sentir o cheiro daquelas pessoas amanhecidas e passar mal todos os dias antes de pegar o ônibus às sete, eu disse que o ônibus mudaria o itinerário e agora precisaria de mais quinze minutos da manhã pra voltar ao apartamento três vezes quando descobrisse que o dinheiro não era suficiente, ou que havia me esquecido do cachecol. “Não posso sair, hoje tenho de ficar com as crianças”, ele disse. Ouvi o clique do isqueiro e o barulho que fazia limpando a garganta toda vez que se perdia. Era assim, não queria, mas ia, era sempre assim, essa vocação pra Geni, e eu ia, já não brigava mais com isso. Quando abriu a porta, trocamos um beijo seco e não dissemos nada, nem escrevemos nada. Começo da noite, sexo sem saudade. Assisti ao jornal pra ver de novo aquelas sombras com casacos de nylon das promoções de inverno. André falou não sei o quê, e fingi entender antes de pegar a  blusa, abrir a porta e me afastar de sua casa pelas ruas da noite em Itaquera, encolhi-me no cachecol. Sempre gostei do frio, mas não queria o daquela noite. Mesmo assim o buscava. Nunca entendi o sentido desse meu gosto pelo naufrágio. O naufrágio dessa noite era apoiar-me nos braços, de cotovelos na escrivaninha cerejeira no apartamento em Santo André e me perder das sombras, de todas elas, até da minha própria. Pensei escrever alguns versos, escrevi. Estudei astronomia, matemática, mitologia. Pensei rir ao computador, baixar seriados antigos, pensei conversar numa sala de bate papo qualquer, animado, desses de gente que sabe tudo, que é de tudo, carcaças solitárias, pensei colocar o mp3 até estourar o fone e encher a cabeça. Escolhi dormir. Quando acordei nesta manhã, os versos que fiz me destruíam, mal amanhecia.


Hoje está com cara de chuva. Choveu a noite inteira. A janela do meu quarto, apenas encostada, abriu com o vento e acordei com gotas de chuva no meu rosto. A noite foi longa. Não sei se pego o trem, o buraco negro, ou se continuo assim onde o espaço e o tempo entram em colapso e as equações perdem o seu significado.


texto para oficina Luiz Ruffato


tema: cotidiano