- por Jo barranova
Mindinho,
Lembra dos amigos da Augusta? A gente ainda se reúne. Não parei com essa droga. Puritanistas disfarçados, vagabundos assumidos. Um dia lhes disseram que ser pós-modernos é causar estranhamento (estranhos até que são). Não quero fingir que sou outra. Ando assim, meio cristã, meio geni, no meio de homens e bichas, levando e comendo o pó da estrada (às vezes nem sei do que estão falando, às vezes, sei que estão falando nada). Eles continuam sem saber, Mindinho, que existem muitas coisas além da nossa pretensão de pensar que sabemos tudo. Agir como se soubessem é o que mata. Se ainda escrevo? Ainda tento. Mas parei coma vodca, o uísque. Entre projetos, contos e transas que não deram certo eu tomei vinho pra parar de pensar, mas vinho bom está caro demais para meu bolso de brechó. Tomei São Tomé e ontem ele nem me trouxe dor de cabeça (acho que estou calejando). Ainda preciso empurrar a cutícula tantas e tantas vezes, tentativa neurótica de empurrar qualquer coisa pra fora da minha cabeça. Quase não consigo me concentrar nas oficinas, mas tenho aprendido que a civilização não só dialoga com a barbárie, como também se encontram às escondidas numa dessas construções abandonadas para tomar duelo e passar um beque. Tinha uma idéia formidável para um conto, ele caducou antes de ir para o papel e por mais que me esforce, não lembro do meu conto Jabuti. Talvez se parasse de beber. Outro dia terminei de ler um (da nossa perua dark, aquele mesmo) suspeitei que não fosse qualquer coisa, o mandei à merda, mas ele foi desengonçado se depositar em outros lugares além do livro. Minha cabeça, por exemplo. Agora, se meu homem bêbado e brocha “depositar-se como um pedaço morto de carne fria junto ao meu corpo”, me diga, que terapia vai resolver? Os literatos da Augusta? Lá todos são cínicos, Mindinho, um pé no saco. Inclusive eu.