- conto de Jo barranova
A mangueira sombreia no pátio e, no computador desligado, o reflexo vago de meus cabelos brancos. Certos momentos, entregamos o destino aos cuidados do acaso que nada sabe de nossas necessidades.
Houve um desses momentos anos atrás e ele me sorria numa estrada de terra quando voltava do trabalho, atravessava a passarela e engraxava os sapatos. O caminho do menino de cócoras riscando no chão uma figura imaginada a cantarolar uma canção sem letra. Menino que dizia muito pouco sobre pais, morte, nova família. Contava de lutas, de sonhos, pose de sabido, “Isso não é vida, doutor” e eu, desconcertado, imaginando o que o moleque sabia da vida. Mas o menino sabia, sabia meu nome, sobrenome, endereço. Ele sabia de mim e das tardes de primavera em que o chamava para tomar café em casa, quando se admirava da única fresta no muro do quintal projetando o sol no vidro da janela sobre os papéis espalhados na mesa da cozinha. Nesse tempo veio a gravidez de Vitória, um filho era nossa obsessão, e o menino me cumprimentava todo dia de sorriso mais aberto. Queria dizer dos meus planos, mudar daquela vila pequena demais para meus trinta anos sem luta nem contestação. Não dizia. Um dia ele não apareceu, voltou depois de semanas mais cabisbaixo, magro e demorava com o brilho nos sapatos.
- Quero propor um negócio… – baixava os olhos – O senhor não quer um filho? Então, posso trabalhar, ajudar. O senhor não gasta comigo, ainda ajudo sua mulher com o serviço de casa.
Quase ri, não fosse ter reparado seus braços marcados, pernas. “Mês que vem me mudo com Vitória pra ter nosso filho em São Paulo”. Foi assim que disse, ele apenas sorriu, baixou a cabeça novamente e terminou de engraxar os sapatos.
- Tem nada não, doutor.
E não voltamos mais ao assunto. O filho obsessão já estava a caminho e minha camisa de corte militar tinha planos que não incluíam o menino de sardas numa cidade que ainda usava em sua entrada o emblema com as iniciais de antepassados que não eram meus. E faltando apenas um dia para a viagem, sem saber o que dizer, pedi que me escrevesse uma carta e perguntei se precisava de alguma coisa. Sem me olhar, disse que não. Apenas isso e se foi. Sumiu sem pressa e não voltou no dia seguinte para se despedir.
Entre passeatas e inquietações, na casa nova, o móbile permaneceu imóvel sobre o berço de mogno. Nosso filho não nasceu. Outra vez não nasceu. O vento tentava trazer vida ao quarto no levantar da cortina, no balanço do elefante de pano. Eu fazia outros planos, ficava mais ocupado com outras novidades enquanto via Vitória cada vez de punhos mais fechados, militante, intelectuais, conflitos e contradições de mulher que arrisca tudo como se não tivesse mais o que perder. Até que nos perdemos.
Hoje vejo as coisas e elas não são inteiras, sobraram fragmentos pichados no muro desta construção, aqui onde o sol brilha cheio de força sobre a copa da mangueira, velha amiga, única talvez, e traz de volta o raio por entre a fresta do muro. A cidade cresceu, o emblema não existe mais. Confiei meus dias aos sites de relacionamentos, onde todos se encontram, novos, velhos conhecidos, todos se correspondem. Um e-mail, um recado neste lugar de muro alto e poucas árvores que nada me dizem da primavera. Meu corpo pesa e os olhos se perdem da cor, carentes de algo levado num certo rosto cabisbaixo. E me pergunto da alegria que se perdeu na penumbra dos anos. Talvez se soltar esse grito, o sol da fresta no muro que atravessa o vidro da janela até a mesa na cozinha sobre o notebook aberto, ainda desligado, ele se torne um emblema. Sim, talvez quando abrir a caixa postal, este emblema se torne o carimbo sobre a cera, e eu possa enfim caminhar pelas ruas estreitas da minha vila. E não me importe mais com ele nascendo e se pondo indiferente a minha solidão.