25 de julho de 2008

madrugadas e espelhos

- conto de Jo Barranova

Numa noite de circunstâncias eu fugia. Era uma noite urbana já em silêncio, madrugada de insônia, veludos, lembranças e cabelos grisalhos distraidamente transportados para outro fio de destino. Era uma madrugada de socorro quando conheci a menina. Noite de vinho barato num sereno de cigarros e néon, quis escapar dos seus olhos, mas sua voz carregava uma solidão que também era minha “Vê como hoje as nuvens quase cobrem a lua?”. Era inverno naquela madrugada e já nem tínhamos o metrô quando deixamos os bares nos protegendo do frio por uma Paulista deserta. Ainda era escuro quando toquei a menina, um toque macio desses onde a palma desliza sobre um peito que se assusta na noite, e noutra noite. Minha cama era dona dos seus dias. E quase me esquecia do veludo marrom quando ela se foi num bilhete deixando a cama mais estranha. No silêncio da casa, passei noites à janela na busca do espectro de uma canção vinda de longe a me embalar em palavras desconexas. Sílabas soltas de uma melodia que balançava um berço qualquer. Dormi. Mas fazia frio no sereno e já era final de outono. Quando tive medo de meus pesadelos, lembrei do abraço do homem, seus cabelos grisalhos, de seus pêlos em meu peito no tempo de queijos e vinho argentino no pufe de veludo marrom comprado num camelô na Paulista. Mas ontem a menina voltou e seu medo se deitou em minha cama. Ontem ela quis gritar, mas estava frio, não vi seu grito no peito debaixo dos cabelos soltos no casaco sobre o corpo nu. Era novamente uma noite urbana, dessas em que a fumaça do cigarro se mistura à neblina deixada de uma tarde de vultos. Estendi os braços à procura da menina de minha noite de néon. Percebi seu cobertor vazio, mas a vi pelo espelho. Sentada na poltrona, abraçava os joelhos e seus olhos na janela se perdiam do isqueiro no chão, enquanto fumaças pareciam borboletas tentando tragar alguma outra liberdade, seus dedos finos no anel azul nem sabiam onde depositar as cinzas que caíam sobre a outra mão. Transversa ao reverso quando me chamou à janela “Vê como hoje as nuvens correm mais rápido?” Não vi, meus olhos eram daquele espelho, sua pele, seu corpo preso no enigma. No espelho. Mas o espelho só refletia, e não é nisso que está o seu abismo? Não vi. Talvez o desejo que a menina do espelho fosse minha me perdia das nuvens daquela noite. Talvez nesse dia de maio, não de agosto, eu ainda tivesse medo de voltar-me à janela, de encarar no batente uma alma patética à espera de um homem, outros cabelos que não eram longos, mas distraidamente grisalhos quando deveriam ser negros como os da menina daquela noite que flutuava com o tempo na fumaça do café a misturar-se a do cigarro além das persianas amarelas.

exercício - Oficina Trevisan