15 de março de 2006

Silêncio

“A primavera trouxe a mim o riso horrível do idiota”
Rimbaud


Eu acreditei nos seus olhos quando vi o sepulcro caiado. Estimavam saber mais que eu iluminando lápides cultas, suntuosas, nas palavras dos mestres. Mas, infectos, abriram-se para mim exalando um podre de sentidos vazios. Armaram o palco. Chamaram-me para palhaço, pintando-me nas cores das flores que enfeitavam a minha morte. Ao meu espírito, um setembro sombrio. Ao meu poético, o golpe da caridade. E os meus versos ainda desconhecidos esperavam o tempo diante daquele toldo. Vomitavam sobre mim palavras que não ouviam. Apenas faziam o que já foi feito por outros olhos. Enquanto em silêncio, os vi assim despejando sobre minhas vértebras as suas frustrações. E indignaram-se porque eu lhes dava o amargo riso do idiota. Um sorriso que não pretendia lhes dar. Mas que fazer se era esse o riso que mereciam?
(texto eu fiz para o sarau dos malditos. Ficou meio besta, mas publico assim mesmo. Tinha me esquecido dele.)